A ORIGEM DO NATAL

02-02-2022

para a sociedade contemporânea ocidental, parece claro que a origem do Natal, muito embora a festa tenha sido apropriada como uma tradição até mesmo desvinculada de crenças, é o nascimento daquele personagem, cerca de 2 mil anos atrás, chamado Jesus — e toda a construção religiosa que seria erguida a partir dele.

Mas há diversos indícios de que as pessoas já comemoravam o Natal cerca de 7 mil anos antes de Cristo, o que faz dessa celebração quase tão antiga quanto o próprio conceito de civilização.

Os Druidas já faziam tal celebração em Stonehenge.

A explicação está nos marcos da natureza: afinal, se a ideia de civilização remonta às origens da agricultura, nada mais natural do que celebrar o solstício de inverno como um momento de renascimento, de renovação.

Claro, estamos pensando sob a ótica do hemisfério norte. O solstício de inverno, que ocorre nessa parte do globo nas proximidades do Natal, indica aquele momento em que a noite chega ao seu máximo — a partir daquele dia, o sol cada dia terá mais tempo para iluminar.

Em um tempo de precária ciência e de exagerada observação dos fenômenos naturais, o sinal era claro: a luz solar renascia nesse momento, aumentando em tempo e intensidade a cada dia desde então. E era o que propiciaria a agricultura da nova safra, a alimentação do ano vindouro.

Mitra
Representação do Deus Mitra

No livro Religions of Rome, os historiadores Mary Beard e John North lembram que o período dedicado a celebrar o solstício era todo devotado a um deus — Mitra —, durava uma semana e era permeado por celebrações entre as famílias, com trocas de presentes e comilanças típicas. Nada diferente do Natal contemporâneo, portanto.

Oriundo da mitologia persa, Mitra era o deus da sabedoria, representando a luz, o bem sobre o mal.

Aos poucos, no mundo romano, foi dividindo espaço com outra divindade, Saturno: afinal, se era o começo de um “novo” sol, nada mais natural do que render graças àquele que era o deus da agricultura.

Mas Mitra também era a divindade que se confundia com o próprio Sol: com sua carruagem, viajava ele todos os dias pelo céu com o objetivo de iluminar e espantar as forças das trevas.

Na Roma antiga o Natal chamava-se Saturnália

O 25 de dezembro se torna oficial, portanto, no século 3 da nossa era — mas ainda sem nenhuma alusão a Jesus.

Imperador romano Aureliano

A culpa recai sobre o imperador romano Lúcio Domício Aureliano (214-275). Ele, que havia ascendido hierarquicamente depois de engrossar as fileiras do exército romano, decidiu institucionalizar a festa que já era muito celebrada pelos militares de Roma.

“Tinha um forte apelo junto aos soldados a filiação, do ponto de vista religioso, à divindade do Sol Invictus”.

Em sociedades basicamente dependentes dos ciclos da natureza e em um período carente de conhecimentos científicos para justificar as mudanças do tempo, fazia muito sentido que divindades e celebrações tivessem, em seu cerne, o objetivo de justificar os bons e os maus resultados das safras.

Houve muitas festas de nascimento de grandes personagens e personagens míticos e algumas datas coincidentes com equinócios e solstícios. E mudanças de estações no ano agrícola sempre eram alegremente celebradas. Semear e colher era o ritmo da vida e de celebrar natal, aliás, palavra em corruptela para nascimento.

Em paralelo a esse contexto, crescia em tamanho e importância aquela nova religião, no início uma seita judaica perseguida, depois uma nova doutrina. O cristianismo. Seu mito fundador era uma figura nascida em Belém, província romana na Judeia, no Oriente Médio. A data exata? Ninguém sabia naquela época, ninguém sabe ainda hoje.

Não se tinha clareza, certeza, nenhuma documentação categórica no sentido de dizer a data em que Jesus nasceu.

Não sabemos com precisão nem o ano em que ele nasceu, muito menos o dia. As informações que nos chegaram, dos evangelhos, foram de muito tempo depois [da vida do próprio Jesus], escritas por volta do ano 70 [de nossa era], cerca de 40 anos depois do ‘evento Jesus Cristo’. E temos algumas informações ali que não batem historicamente com aquilo que sabemos historicamente.

Ao analisar as narrativas antigas, é possível reconhecer que quando as comunidades cristãs tomaram a decisão de correr atrás desses dados, eles já haviam sido perdidos.

Não se tinha mais como recuperar minimamente qualquer história no sentido do factual nascimento de Jesus. Não sabemos a data exata do nascimento de Jesus, o filho de Maria e José, o nazareno.

 

Os imperadores romanos e o Natal

Se Aureliano efetivou a comemoração ao Sol Invictus, é preciso lembrar de dois outros imperadores romanos que contribuiriam para a criação do Natal tal e qual conhecemos hoje. Flávio Valério Constantino (272-337) e Flávio Teodosio (346-395).

Imperador Constantino
Imperador teodósio

Enquanto o primeiro permitiu o exercício do cristianismo, o segundo tornou a religião cristã a oficial de Roma.

O que acontece nesse pêndulo histórico é que o cristianismo sai da condição de religião marginal, de seita perseguida, e se torna religião oficial do império.

Então nada mais natural do que, entendendo Jesus como a “luz da vida”, sobrepôr a festa de seu nascimento àquela comemoração pelo Sol Invictus, que nada mais era do que o renascimento do sol — já que o solstício indica que, a partir daquele dia, o sol diário fica cada vez “maior”.

Na narrativa, a ideia de associar Jesus a uma luz, de uma estrela que ilumina os caminhos, tem sentido. Assim, a partir da segunda metade do século 3 há um profundo diálogo entre experiências religiosas e esse é um movimento interessantíssimo para o cristianismo. Desta forma, o 25 de dezembro como Natal não foi algo “inventado”, mas sim algo “convencionado”.

Os antigos romanos celebram, na data, o solstício de inverno no hemisfério norte, a festa do Sol Invicto. Os cristãos, desde os primeiros séculos, associaram Jesus à luz que vem para iluminar a humanidade e tirá-las das trevas.

“Assim, a identificação com o Deus Sol era bastante natural à mentalidade da época. Já havia, nas pregações de São Paulo, por exemplo, a noção de que o ‘Deus verdadeiro’ cristão já era intuído e estava presente nos panteões da Antiguidade”, prossegue.

“As primeiras igrejas cristãs também usavam muitas vezes materiais recolhidos de templos pagãos, para mostrar as antigas crenças não haviam simplesmente sido abandonadas, mas sim integradas e superadas por uma mais verdadeira”, diz ele.

“Uma festa da natureza foi reapropriada pelos cristãos dando um novo significado a ela pelo nascimento do Filho de Deus”.

Quando, afinal, nasceu Jesus?

A verdadeira data de nascimento do Jesus histórico é um mistério que jamais será revelado, acreditam pesquisadores.

Não há registros da época e os relatos mais precisos que foram preservados, os evangelhos, não se atentaram — ou não conseguiram atentar — para detalhes deste tipo.

“O que Mateus e Lucas [os dois dos quatro evangelistas que narram o nascimento de Jesus] fizeram foi muito mais um olhar teológico, contando o nascimento de Jesus à luz de paralelos com outros nascimentos divinos”.

“Assim, Jesus ganharia características de filho de Deus, de um homem divino, de alguém diferente, poderoso, milagreiro, exorcista. Seu nascimento já denunciava que ele era alguém diferenciado”.

“Não falamos de data, porque data mesmo nunca se chegou a um consenso”.

Imperador Herodes, O grande

“Historiadores suspeitam que Jesus possa ter nascido no fim do governo de Herodes, o Grande, portanto entre o ano 6 e 4 antes da Era Comum. Imagina que loucura: Jesus nasceu ‘antes de Cristo’. Só com o passar do tempo se assumiu a data do 25 de dezembro”.

Quando o cristianismo se oficializou como religião romana, uma série de concílios passaram a ocorrer para organizar as regras da doutrina. Foi quando apareceu pela primeira vez essa questão do Natal.

“No século 4 ocorreram grandes concílios da igreja definindo dogmas e datas importantes. Foi aí que tivemos a fixação do que a gente chama de Natal. Substituir [uma celebração que já havia] era uma prática comum”.

Papa Júlio I

Essa oficialização coube ao papa Júlio Primeiro (?-352). No ano de 350 ele publicou um decreto substituindo a veneração ao Deus Sol pela data do nascimento de Jesus. Foi a maneira que ele encontrou para suprimir as festas pagãs de inverno.

“O cristianismo soube dialogar e se aproveitar das interações culturais com outros campos religiosos. É isso que o fez sobreviver: essa capacidade de se transformar para continuar sendo o que ele era.”

“E é isso que faz com que ele sobreviva ainda hoje, todos os dias, se transformando para continuar sendo o que ele é.”

“Jesus como Sol Invictus seria absolutamente representativo se colado a Jesus viesse também a data do dia 25 de dezembro”

“Foi uma data ressignificada, a ressignificação cultural de uma festa. O cristianismo construiu sob uma base já existente.”

“A data já era celebrada por outros povos, da antiguidade oriental aos gregos e romanos. E como o cristianismo nasceu no império romano, essa data acabou sendo apropriada pelos cristãos. Não da noite para o dia.”

Para o sociólogo Ribeiro Neto é preciso atentar para o fato de que “existe uma estratégia comunicativa bem conhecida e praticada na sociedade moderna, mas que sempre existiu”. “É mais fácil ressignificar práticas e costumes já arraigados na vida do povo do que criar novos costumes e novas práticas”, ressalta ele.

“Por exemplo, quase todas as celebrações que marcam momentos de passagem na vida das pessoas, como formaturas e posses, e festas cívicas, com seus desfiles e pompas, emulam gestos semelhantes realizados pelas religiões”, diz o sociólogo.

“Mas, além disso, o cristianismo baseia-se na premissa de que o coração do ser humano sempre anseia por Deus, mesmo que não o conheça ou mesmo o renegue. Sendo assim, para a lógica cristã era natural que a vinda de Cristo já fosse intuída e até comemorada antes mesmo de seu nascimento. O renascer do sol na manhã ou a volta dos dias mais longos do ano após o solstício de inverno seriam sinais a animar a esperança dos seres humanos de que um Deus viria a iluminar suas vidas, assim como o sol sempre volta depois da noite”, acrescenta ele.

 

Da esquerda para a direita, temos Mitra, Sol invictus e Jesus Cristo, notem os raios de luz saindo de suas cabeças, como se fossem o sol.

 

A ORIGEM DO PAPAI NOEL

Uma série de figuras de origem cristã e mítica têm sido associadas ao Natal e às doações sazonais de presentes. Entre estas estão o Papai Noel (Pai Natal em Portugal), também conhecido como Santa Claus (na anglofonia), Père Noël e o Weihnachtsmann; São Nicolau ou Sinterklaas, Christkind; Kris Kringle; Joulupukki; Babbo Natale, São Basílio e Ded Moroz.

São Nicolau, o Bispo que virou Papai Noel

A mais famosa e difundida destas figuras na comemoração moderna do Natal em todo o mundo é o Papai Noel, um mítico portador de presentes, vestido de vermelho, cujas origens têm diversas fontes. A origem do nome em inglês Santa Claus pode ser rastreada até o Sinterklaas holandês, que significa simplesmente São Nicolau. Nicolau foi bispo de Mira, na atual Turquia, durante o século IV. Entre outros atributos dados ao santo, ele foi associado ao cuidado das crianças, à generosidade e à doação de presentes. Sua festa em 6 de dezembro passou a ser comemorada em muitos países com a troca de presentes.

São Nicolau tradicionalmente aparecia em trajes de bispo, acompanhado por ajudantes, indagando as crianças sobre o seu comportamento durante o ano passado antes de decidir se elas mereciam um presente ou não. Por volta do século XIII, São Nicolau era bem conhecido nos Países Baixos e a prática de dar presentes em seu nome se espalhou para outras partes da Europa central e do sul. Na Reforma Protestante nos séculos XVI e XVII na Europa, muitos protestantes mudaram o personagem portador de presente para o Menino Jesus ou Christkindl e a data de dar presentes passou de 6 de dezembro para a véspera de Natal.

No entanto, a imagem popular moderna do Papai Noel foi criada nos Estados Unidos e, em

particular, em Nova York. A transformação foi realizada com o auxílio de colaboradores notáveis, incluindo Washington Irving e o cartunista germano-americano Thomas Nast (1840-1902). Após a Guerra Revolucionária Americana, alguns dos habitantes da cidade de Nova York procuraram símbolos do passado não inglês da cidade. Nova York tinha sido originalmente estabelecida como a cidade colonial holandesa de Nova Amsterdã e a tradição holandesa do Sinterklaas foi reinventada como São Nicolau.

Concepção atual do Papai Noel, pura influência da Coca Cola

 

ÁRVORE DE NATAL

Os antigos já consideravam as árvores sagradas muito antes da árvore de natal.

Civilizações antigas que habitaram os continentes europeu e asiático, no terceiro milênio antes de Cristo, já consideravam as árvores como um símbolo divino. Eles cultivavam-nas e realizavam festivais em seu favor. Essas crenças ligavam as árvores a entidades mitológicas e sua projeção vertical, desde as raízes fincadas no solo, marcava a simbólica aliança entre os céus e a mãe terra.

Nas vésperas do solstício de inverno, os povos pagãos da região dos países bálticos cortavam pinheiros, levavam para seus lares e os enfeitavam de forma muito semelhante à que se faz nos atuais dias. Essa tradição passou aos povos Germânicos, que colocavam presentes para as crianças sob o carvalho sagrado de Odin.

São Bonifácio cortando a machadadas um Carvalho dedicado a Thor

Uma das versões para a origem da tradição diz que no início do século VIII, o monge beneditino São Bonifácio tentou acabar com essa crença pagã que havia na Turíngia, para onde fora como missionário. Com um machado cortou um pinheiro sagrado, outras fontes dizem que foi um Carvalho dedicado a Thor, acho essa versão mais correta, os locais adoravam essa árvore no alto de um monte, e como teve insucesso na erradicação da crença, decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. Nascia aí a Árvore de Natal.

O primeiro uso registrado de uma árvore para celebrar o Natal e o Ano Novo ocorreu em Riga, na Letónia, em 1510. Acredita-se também que esta tradição começou em 1530, na Alemanha, com Martinho Lutero. Certa noite, enquanto caminhava pela floresta, Lutero ficou impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve. As estrelas do céu ajudaram a compor a imagem que Lutero reproduziu com galhos de árvore em sua casa. Além das estrelas, algodão e outros enfeites, como velas acesas para mostrar aos seus familiares a bela cena que havia presenciado na floresta.

Há outras versões, porém, segundo as quais a moderna árvore de Natal teria realmente surgido na Alemanha entre os séculos XVI e XVIII. Não se sabe exatamente em qual cidade ela tenha surgido. Durante o século XIX a prática foi levada para outros países europeus e para os Estados Unidos. Apenas no século XX essa tradição chegou à América Latina.

Atualmente essa tradição é comum a católicos, protestantes e ortodoxos.

árvore de natal tradicional

 

Transformações atuais

Nesse sentido, é possível analisar que o Natal passou por novas ressignificações até chegar ao modelo atual — comercial e não necessariamente religioso.

“Hoje, é uma data consolidada e apropriada pela tradição capitalista. Ou seja: o cristianismo ressignificou o Natal, mas o Natal continua sendo ressignificado”. “Continua apropriado pelas mais diversas culturas, por momentos históricos e vai ganhando outros significados ao longo do tempo.”

“O cristianismo incorporou uma efeméride de crenças anteriores e nesse sentido a gente comemora o Natal até hoje”. “Mas o Natal continua sendo transformado, ressignificado. Seja pelo modo de produção capitalista, seja pela forma de celebração.”

 

Referências:

– https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2021/12/como-era-o-natal-antes-do-nascimento-de-jesus.html

– https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81rvore_de_Natal#cite_note-:1-4