O significado do Chifre

27/04/2021

Desde que nascemos, praticamente somos obrigados a acreditar em uma série de crenças, mitos, lendas e superstições, seja para aprendizado ou nos colocar medo, muitas criam raízes tão profundas que acabamos crendo como verdade absoluta, isso foge do nosso controle, porque muitas das vezes está na cultura, na memória coletiva de todo um povo, uma nação. Somos seres racionais, quintesenciados, e a medida que vamos nos esclarecendo, o véu da ignorância é rasgado, e nos faz enxergar a verdade, que não existe o sobrenatural, existem sim, leis da natureza desconhecidas, há pouco mais de cem anos, a ciência dizia que era impossível algo mais pesado do que o ar voar, olhem o que vemos hoje, os aviões, com toneladas de metais voando perfeitamente nos céus, portanto não devemos negar as coisas, não duvidar de nada, há determinados segmentos religiosos, que o que não conhece, atribui ao sobrenatural ou ao Diabo, então, tenhamos a mente aberta e investigar o que lhe parece estranho ou inexplicável, nem sempre as coisas são o que parecem. Nesse artigo vou explicar tudo sobre o tema em questão que é o chifre.

Mas antes , com um tema desse, chifre, sempre surgem as brincadeiras, as risadas, porque chifre na maioria dos povos é sinônimo de traição, então permitam-me fazer uma pequena explanação sobre isso.

Deus Khnum (egito), Deusa Ishtar (Babilônia)

Estudos etimológicos levam à cidade de Éfeso, no século 2, onde o grego Artemidoro citou o termo kérata poiein, significando “fazer corno a, enganar um marido”. O mais provável é que a expressão tenha aparecido por analogia. As fêmeas de animais chifrudos (carneiro, touro, bode) vivem ao redor de um macho único, o líder. Quando esse macho perde a fidelidade de uma delas, ele se torna brigão e ciumento e coloca os chifres em posição de ataque, partindo para cima de todo mundo, mas há outras versões, ninguém sabe ao certo a origem, acho essa mais plausível. Agora, vamos ao assunto sério.
Nas civilizações antigas, os chifres eram uma representação de poder e masculinidade. Os chifres sempre foram sinal de algo divino.
No Egito antigo, os chifres, em ligação com a coroa, serviam muitos deuses como adorno da cabeça e eram considerados pelo povo simples como súmula do terror que cerca o sobrenatural. Na Babilônia, por exemplo, o grau de importância dos deuses era identificado pelo número de chifres atribuído a ele, como símbolo de seu poder supra terreno. Na Grécia Antiga, conta-se que Zeus, quando nasceu, foi alimentado pelas abelhas, que lhe davam mel, e a cabra Almatéia deu-lhe o leite. O carneiro era consagrado a Zeus e era de seu chifre a famosa “Cornucópia” que derrama os tesouros sobre a Terra, símbolo da prosperidade e da abundância, hoje, simboliza a agricultura e o comércio, além de compor o símbolo das ciências econômicas. Os chifres foram incorporados pelo homem quando perceberam que se vestir como animal facilitava a sua aproximação durante a caça.

Quando o homem saía em busca de caça, ao retornar à sua tribo, colocava os chifres do animal capturado sobre a sua cabeça, com a finalidade de demonstrar a todos da comunidade que ele vencera os obstáculos. Graças a ele, todo clã seria nutrido, ele era o “Rei”. O capacete com chifres acabou por se tornar em uma coroa real estilizada, notem as coroas dos reis e rainhas, com suas pontas protuberantes, seriam herança desses tempos?

caçadores ostentando chifres

Os chifres sempre foram tidos como símbolo de honra e respeito entre os povos do neolítico, os chifres exprimiam a força e a agressividade do touro, do cervo, do búfalo e de todos os animais portadores dos mesmos. Entre os povos do período glacial, uma divindade era representada com chifres para demonstrar claramente o poder da divindade que o possuía.

Portanto, como podemos perceber, os chifres desde tempos imemoriais foram considerados símbolos de realeza, autoridade, divindade, fartura e não símbolo do mal como muitos associaram e ainda os associam.

O Deus Cornífero era então o mais alto símbolo de realeza, prosperidade, divindade, luz sabedoria e fartura. É o poder que fertiliza todas as coisas existentes na Terra. Na Wicca, que chamam de bruxaria, é muito cultuado, mas não é exclusividade só dela, se observar-mos por toda a antiguidade, até nas pinturas das paredes das cavernas, com 12.000 anos, veremos o culto a entidades ou Deuses Corníferos, é grande o número de lendas e mitos em quase todas as religiões antigas em que aparecem efígies de Deuses adornados por chifres, como Ísis, a Deusa do Egito, e Odin ou Wotan, o maior dos Deuses vikings, que era o Deus da Sabedoria e governante de Asgard. além dos exemplos citados na Babilônia e Egito temos na Grécia e Roma antiga, Baco, Pã, Dionísio, entre outros, todos representados com chifres.

Na Astrologia, o chifre pode ter uma conotação fálica, de potência viril, de força e de iniciação, no entanto, está relacionado também a uma das fases da Lua, tanto que as Deusas da Lua costumavam ser representadas por pequenos chifres, e os animais com chifres eram associados à Lua.

Moisés representado com chifres

No Velho Testamento há citações de chifres como símbolo de poder divino. Em Deuteronômio está escrito: 33:17: A sua formosura é como a do primogênito do touro; os seus cornos são como os cornos do rinoceronte: com eles levantarás ao ar todas as gentes…” A própria figura do profeta Moisés é retratada com chifres após receber as Tábuas da Lei. Há muitas outras referências a chifres na Bíblia e nenhuma com referências maléficas, muito pelo contrário, sem contar no Judaísmo, nenhuma referência diabólica.

Até aqui vimos, que a questão do chifre, não tem nada haver com o mau, mas afinal, quem demonizou os chifres, como surgiu a imagem clássica do Diabo?

Tudo começou através da cultura religiosa Judaica, o então chamado Rito de Expiação:

Dois bodes eram levados juntos com um touro ao lugar de sacrifício, como parte das cerimônias. No templo, os sacerdotes sorteavam ao azar um dos dois bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício. O segundo, tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava, baixinho, aos seus ouvidos, os pecados do povo de Israel.
Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel.
Portanto, o “Bode Expiatório” é nada mais nada menos do que a representação daquele que carrega os pecados do povo e o redime com o sacrifício da própria vida.

Esse era o “Bode Expiatório”, que é até um termo popular em nossa Sociedade, logo houve uma associação do Bode e seu chifre com o pecado e o seu mau cheiro foi associado ao mal, se observarmos com atenção o ritual citado, podemos traçar uma analogia com o auto-sacrifício de Jesus, que chama para si os pecados da humanidade,é expulso da cidade sob ordem dos sacerdotes, e é sacrificado no Gólgota. É por isso que algumas vezes, surgem na Internet representações de Jesus com chifres, já que estamos esclarecidos até aqui, não teria nenhum problema representá-lo dessa forma, se bem que, eu prefiro a imagem tradicional, hoje em dia entendo o que estavam querendo dizer.

Então já solucionamos uma parte da demonização dos chifres, começou com o bode.

O Diabo segundo um manuscrito medieval

A imagem do Diabo mais reconhecível surgiu na Baixa Idade Média, durante a pandemia de peste bubônica que assolou a Europa e dizimou entre 25 e 75 milhões de pessoas. Como sempre visualizamos vantagens mesmos nos momentos de maior horror, como a Igreja não podia proteger os fiéis da doença, as representações de Satanás centraram-se nos horrores do inferno, refletindo o ânimo do momento e lembrando por que não se devia pecar.

A Bíblia diz que Satanás era o maior adversário de Deus. Na Bíblia judaica, o diabo é apenas outro agente subordinado a Deus, um anjo do mal, uma alegoria que simbolizava a inclinação maligna dos homens e mulheres. Esse personagem foi desenvolvido pelos cristãos até transformá-lo em uma representação da maldade suprema.

A imagem mais familiar para nós surgiu pelas mãos de gerações de artistas e escritores que pegaram o pouco que é dito pela Bíblia sobre Satanás e o reinventaram ao longo do tempo e nos trouxe a imagem clássica de Satanás, com chifre, cauda e tridente, originalmente ele era azul e não vermelho.

Mas o mundo evoluiu, as “travas” da Igreja Medieval, com seu Santo Ofício, caíram, a ciência avançou explicando as doenças, os antibióticos revolucionaram os tratamentos médicos, as condições de saneamento melhoraram, as pessoas tiveram acesso à educação e mesmo os desastres naturais podem ser explicados e em alguns casos até previstos, a figura do Diabo ficou ameaçada.

De alguma maneira o culto ao medo teria de ser mantido, a estratégia foi associação ao sobrenatural, serviram perfeitamente ao propósito o Ocultismo, o Movimento Nova Era, as Associações Secretas, os Iluminatis, a Nova Ordem Mundial, etc, mantidos pela exacerbação de religiosos fanáticos, que querem salvar nossa Alma do controle do Mal, e estudando uma a uma, grande parte dessas associações, senão todas, não têm nada haver com o mal, o Diabo.

Esclarecendo mais uma coisa, se estudarmos a etimologia da palavra Diabo, significa inimigo, então tudo quanto é inimigo, pode-se chamar de Diabo, o verdadeiro inimigo de Deus, seu nome é Satanás, esse sim. A palavra Demônio, se estudarmos a etimologia desta palavra, significa “espírito”, todos nós somos espíritos encarnados, então somos Demônios.

Mas, um alerta, mesmo sabendo o significado destas palavras, não é bom ficar falando, porque no plano espiritual, há espíritos muito maus que se intitulam o próprio Satanás, e para eles as palavras são todas a mesma coisa, as palavras emitidas por nós, têm poder, e se chamarmos, eles virão para o nosso lado, a palavra inferno também, você chamará para sua vida, se você for chamado, você não vai atender? Então, o mesmo é para os que habitam os planos espirituais, a plasticidade do corpo espiritual, faz com que assumam até o formato de chifres em suas cabeças, portanto, evitem falar.

O importante é estarmos esclarecidos, tirar o véu da ignorância de nosso rosto, e entender de uma vez por todas que nem tudo é o que parece, antes de apontarmos o dedo, tirar conclusões precipitadas, vamos estudar, nos informar primeiro, isso é em tudo em nossa vida, não é só para o espiritual, vamos entender primeiro o contexto, para aí sim tirar conclusões, mas sem acusações, sem conflitos, sempre respeitando as ideias e o espaço do próximo, assim estaremos contribuindo para a Paz nesse planeta, no próximo artigo voltarei a abordar mais ou menos o tema, e vocês vão ver o estrago que a ignorância faz com nossas mentes, acreditando em bobagens. Acredito que acabou o medo do chifre, ou pelo menos vocês estão vendo com outros olhos, um grande abraço a todos.

Referências:

https://run.unl.pt/bitstream/10362/50263/1/Tese%20Marcelo%20Cardoso%20Amato.pdf

https://aminoapps.com/c/wiccaebruxaria/page/blog/o-significado-dos-chifres-na-bruxaria/bNaq_b1YuouXZvB5LV42bxq0Xx71vL7DXln

http://www.yeshuamelekh.com.br/o_conceito_tanaico_de_chifre

https://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/05/160508_diabo_vermelho_chifres_rb

https://umbandabrasileira.wordpress.com/2009/03/09/chifres/?fbclid=IwAR3M1g0WBNbHJmDxZXfpxEHKozlMwfA-7mOyJGLhsPItdsH07wsIYrBzMZQ

https://www.espiritualidadesemrotulos.com.br/2017/02/09/supersticoes-e-simbolos-o-significado-dos-chifres-parte-1/